sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Da chacota ao orgulho

Moro na Rua Sorocaba, endereço de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. Tenho o privilégio de ver o Pão de Açúcar da minha varanda e o Cristo Redentor da Janela do quarto dos fundos. O problema é que nem essas visões me salvam das piadas do São João Batista. Vou explicar melhor: embora possua duas visões quase paradisíacas – “quase” por causa da distância -, os amigos não se esquecem de fazer piadas com minha residência, somente por ser ela vizinha do Cemitério São João Batista. Isso sempre me trouxe certo constrangimento, principalmente quando ia dar referência para a entrega da pizza ou da farmácia. Ora, por todo esse sofrimento tênue, mas contínuo, senti-me na obrigação de entender o vizinho tão execrado, tão mal-falado e tão mórbido na visão dos meus próximos. Acordei em uma Quarta-feira de Cinzas de 2008 – é sério, só lembrei depois que saí do Cemitério -, mexi no computador, vi os noticiários do resultado do Carnaval Carioca, fiquei entediado e falei sozinho: - Vou lá no São João agora. Saí com uma calça desfiada e comprida, pensei nos germes que minha mãe dizia haver nos cemitérios, pedindo sempre pra gente tomar banho assim que chegava de lá. Dobrei a ponta da calça e lá fui eu. Estava vestido com uma camisa preta de malha que dizia “Carioca 10”, e na frente “Rio de Janeiro”. Até cheguei a pensar que aquela roupa alegre não tinha muita relação com um cemitério, afinal de contas cemitério está para pessoas mortas! Dei meus primeiros passos pela calçada, li a frase em latim “revertere ad locum tum” posta no portão de entrada e referenciada por Machado de Assis em sua crônica sobre um certo livreiro da Rua do Ouvidor. Caminhando pelo corredor principal, avistei dois túmulos de impressionar a qualquer cidadão: Luiz Carlos Prestes – quente na política; e Tom Jobim – quente na música. Assustei-me de imediato. Prestes foi um político importante, perturbou governo, movimentou massas, mas era um homem local. Tom não! Um dos maiores nomes da música mundial descansava ali, a alguns “metrinhos” do meu apartamento. O cara que encantou e cantou com Frank Sinatra – não há erro de paralelismo. Se eu voltasse dali já teria valido! Teimei. Acreditava ser difícil me surpreender mais (Que droga comecei pelo maior! E agora?). Andei mais uns 15 metros e me assombrei! Não estava acreditando! Era um obelisco de pedra espetacular! Havia uma estátua de Ícaro, o epitáfio bem cuidado e o nome era magnífico - Santos Dummont. Caramba! Ali do lado da minha casa estavam os restos mortais do Pai da Aviação, aquele idolatrado pelos franceses e odiado pelos americanos, que gostam mais dos irmãos Wright. Até porque pra agradar americano tem que ter coisa de americano. Ou não? Caminhei seis passos a noroeste e encontrei aquela que me quebrou a teoria sobre americanos. Estava ali com escrita que copia a assinatura “Carmem Miranda”. Ufa! Tinha que parar. Meu coração apaixonado pelas coisas do Brasil e pelas coisas do Rio me fizeram sentir não mais envergonhado de morar aqui, mas arrogante. Arrogante sim. Olhando mais rapidamente vi outros muitos túmulos: Visconde de Taunay (morreu Barão), Vicente Celestino, Cazuza, Clara Nunes, Marechal Floriano Peixoto, Afonso Pena, José de Alencar, Oswaldo Cruz, Nelson Rodrigues, José Lins do Rego, Heitor Villa-Lobos e muitos outros nomes que fizeram dessa nação algo maior do que imaginamos. Saí extasiado, lembrei que nós, cariocas, brasileiros, não podemos esquecer quem somos e de onde viemos, que um cemitério não é tão ruim quando lembramos que tudo o que se construiu passou pelas mãos dos que ali descansam e, o maior aprendizado de todos, andar em cemitério pode ser um fantástico encontro com as nossas raízes. Adorei.

Marcelo Portella

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