
Como professor de cursos preparatórios percebo que a grande massa de estudantes que se envolvem nesse processo vem empanturrada de expectativa. Mas antes de apresentar a vocês a minha visão da coisa, convém definir o que vem a ser expectativa:
Expectativa é um processo de motivação interior, é o sonho, o desejo de alcançar algo, seja ele físico material ou imaterial. Desejosos que somos por qualquer tipo de melhoria, buscamos a estabilidade financeira, o progresso social e, em dado momento, visualizamos isso nos concursos públicos.
Já passei em alguns concurso públicos militares e civis e entendo que esse impulso é nada mais do que desejo. Aquele ditado que diz “querer não é poder” encaixa-se bem, quando trazemos para os nossos estudos a noção de expectativa desprovida da devida perspectiva. Enquanto alguns só desejam passar, outros planejam passar. Muitos abrem mão de empregos, horários com familiares, diversões gerais. Abdicam do prazer imediato para construírem um futuro melhor. Outros nem sabem que existe curso preparatório. Outros ainda, fazem a inscrição e, quanto não há uma prioridade maior como “fazer algo mais prazeroso” vão ao cursinho e , e em alguns momentos, em casa, no trabalho, ou nas salas vazias do curso pegam o material para darem uma olhadinha. É aí que a perspectiva decide o futuro de alguns.
Costumo dizer que passar em concursos públicos é o meio mais fácil de se chegar a uma vida profissional estável. Para ser servidor ou funcionário público não é necessário ser comunicativo, simpático ou formador de opinião; não é necessário ser um Tom Cruise ou ainda um Pedro Cardoso (por sinal, um show na grande família). O estudante só precisa organizar o tempo, definir um objetivo a médio prazo e estudar com professor e material didático adequados e pronto.
Um outro ponto importante é perceber a fila, que avança. Os mais bem preparados que você, em determinado momento passam e param de concorrer, muitos bons estudantes desistem no meio do caminho por novas oportunidades e outros, por não se sentirem motivados até chegar ao objetivo. Assim você tem a obrigação de apenas, apenas mesmo, estudar, estudar e estudar.
Quem fala que é difícil passar em concursos públicos e vem estudando só vê a coisa oniricamente, só deseja, mas nunca se organiza para alcançar o objetivo. O nosso maior rival – isso soa como lugar comum – é a nossa impaciência, insegurança e falta de planejamento. Nada do que você, querendo de verdade, não consiga ter.
Assim, não esqueça, a expectativa só tem valor nos concursos, quando acompanhada da devida perspectiva. O desejo não move moinhos, é fundamental que façamos ventar. Sonhar é importante, mas planejar é parte do processo.
Sucesso,
"PASSEATAS PAZ E AMOR"
ResponderExcluirHoje ouvi um aluno comentar a respeito de uma passeata contra a violência a se realizar em Copacabana no mês de Janeiro. Não sou cético, mas não tenho paciência com essas “Passeatas Paz e Amor”. Classe média, desde a revolução francesa, não tem e provavelmente nunca terá legitimidade para esse tipo de clamor. É ela que alimenta a indiferença. Entendo os mobilizados por sofrimento pessoal, mas o restante só segue a fila. Arrepio-me só de pensar que esse clamor é por mais força policial. Não que eu seja contra. Policiamento nunca é demais, mas o ato já nasceria viciado. Uma analogia adequada é fazer da polícia um tapete sob o qual escondemos o nosso lixo. Alimentamos durante décadas o imaginário das camadas mais humildes com a falsa esperança da dignidade baseada no trabalho subalterno. Não é desmerecimento, longe disso, mas serventes, porteiros, domésticas, todas as classes de salários ínfimos estão deixando de acreditar nessa “dignidade”. Passaram décadas vendo os pais e avós morrendo nas filas do pronto-socorro, ou desprezados nas filas do CINE. A esse exército descrente se juntam as misérias urbanas. As favelas hoje apresentam uma pirâmide muito bem definida: no topo estão funcionários públicos de baixos salários, militares de baixa patente e comerciantes locais; abaixo, os funcionários privados de baixos salários; abaixo, os biscateiros. A base dessa pirâmide é o maior de todos os problemas. Este grupo de indivíduos (não cabe a palavra “cidadãos”) é aquele de unhas sujas, cabelo ressecado, pele trincada, roupas maltrapilhas, que pede dinheiro nos sinais; ou ainda se dizem guardadores de carros, carregadores avulso etc. Estão distanciados da estética mínima que os tornem naturais aos nossos olhos. Sentimos medo, e, por isso, isolamo-los ainda mais. Não são excluídos. São invisíveis para nós. Exceção, quanto passamos por eles mantendo distância física e julgamentos morais. Em contrapartida eles também não acreditam em nós, não gostam de nós e, consequência natural, não têm nenhuma pena de nós. Colocaram-se na posição de tomar depois de tanto pedir. Um professor amigo caiu na besteira de tentar utilizar o diálogo para que o bandido em um assalto levasse o dinheiro, mas deixasse os documentos. Não ouviu uma palavra, mas 3 estampidos. Foi baleado no pescoço, barriga e nos dedos ao tentar se proteger do tiro endereçado à cabeça. Sobreviveu. Não adianta fazer passeata olhando a hora do relógio para não atrasar o almoço. São ações com espasmo de descargo de consciência. É busca de redenção. Precisamos de ações sociais para tentar recuperar – se ainda for possível - uma ou duas gerações de homens invisíveis.
AÇÃO DOS UNIVERSITÁRIOS DA USP É NO MÍNIMO ANACRÔNICA Em 1984, participei de uma passeata pela redemocratização do País. Lembro-me de ter saído da escola "EIT" – estava no antigo 8º ano – em Taguatinga, uma cidade Satélite ao Plano Piloto no Distrito Federal. Tinha muito pouco conhecimento do que representava aquele movimento. Primeiro, por ser um garoto; segundo, porque inconscientemente sentia que o regime que então dominava estava em frangalhos. Hoje entendo que comparado às ações dos jovens estudantes, principalmente universitários dos grandes centros culturais do Brasil das duas décadas anteriores, eu só estava chutando cachorro morto, e dando uma de herói. Caminhávamos de mãos dadas pelas ruas de Taguatinga Sul. Aproximou-se um caminhão com aqueles bancos de praça na carroceria cheios de soldados da Polícia do Exército. Tomei umas pancadinhas e fui para casa. Saí de alma lavada. Esses foram os últimos espasmos pela liberdade de expressão ou participação que consegui ver. Deixando de lado os Caras-Pintadas – o objetivo era político – não há um pingo de alento de vida no espírito estudantil atual, que possa servir de norte para a sociedade. Essa ideia de invadir a reitoria da USP representa muito mais um reflexo involuntário de uma herança mal compreendida. O estopim do movimento foi a resistência de alguns alunos da USP à detenção de três alunos que portavam drogas no interior do Campus. É como se a história das lutas estudantis do passado servisse para definir a Universidade como um lugar onde é permitido o descumprimento da lei. Liberdade de expressão não é anarquia nem leviandade. Essas ações tentam em vão se sustentar no histórico de lutas produzidas em um momento de repressão às liberdades de expressão dos nossos pensadores, mas os objetivos são totalmente distintos e pequenos. A Polícia Militar fez um levantamento comparando dados de criminalidade de 80 dias antes do assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, em maio, com os 80 dias subsequentes, descontando o mês de julho, em razão do recesso escolar. Depois do assassinato de Felipe e com a presença de policiais no campus, os furtos de veículos caíram 90% (apenas dois casos foram registrados, ante os 20 anteriores). Já roubos em geral passaram de 18 para 6, uma redução de 66,7%. Roubos de veículos caíram 92,3%, passando de 13 para 1. Outros dois crimes que tiveram redução foram lesão corporal, que caiu de nove para dois casos (queda de 77,8%), e sequestro relâmpago, de 8 para 1 (redução de 87,5%). Os dados estão em boletins de ocorrência registrados nas delegacias do entorno da Cidade Universitária. Agora há movimentos de outros grupos pela permanência da polícia. Tanto o primeiro grupo quanto esse último poderiam ter utilizado toda essa energia nas últimas passeatas contra a corrupção, que sem o apoio estudantil sucumbiu. Acredito que as ações universitárias deveriam se voltar para os grandes problemas do País deixando os casos simples de polícia para a polícia.
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